A obra e a vida superlativas de William Agel de Mello

 

Pouco antes de iniciar os percalços provocados pela pandemia do coronavírus (Sars-CoV-2) no Brasil, o diplomata, escritor, tradutor, dicionarista, linguista e poliglota William Agel de Mello, de 83 anos, tinha concluído a última de suas 58 obras, o Dicionário Geral das Línguas Românicas da Península Ibérica. Depois de elaborar 12 mil páginas agrupadas em três boxes literários reunidos em suas Obras Completas, ele garante que não escreve mais nada porque “tudo tem começo, meio e fim”. Natural de Catalão no sul de Goiás, Goiânia foi a cidade que ele escolheu para viver quando se aposentou há dez anos após percorrer 56 países. “Daqui não saio de jeito nenhum”.

William Agel se diverte com o repentino interesse por sua trajetória recheada de superlativos e há muito conhecida de acadêmicos e literatas. Recolhido em seu apartamento no Setor Sul, na capital goiana, ele detalha passagens da vida ao lado de figuras grandiosas de nossa literatura, como João Cabral de Melo Neto e João Guimarães Rosa. E não menos íntima com o espanhol Federico Garcia Lorca de quem traduziu para o português toda a sua obra poética, um calhamaço de quase mil páginas publicado em 2012 pela Editora Martins Fontes.

Esta semana, numa entrevista à revista Piauí, ele voltou a elucidar o panlatino, idioma que começou a esculpir há 70 anos quando tinha 13 anos. “Recordo hata hoi. Va tenir l’inspiración en una note d’insomnia (Recordo até hoje. Tive a inspiração numa noite de insônia)”, diz em panlatino. Pode parecer estranho, mas àquela altura ele já tinha lido, em italiano, A Divina Comédia, o poema épico de Dante Alighieri, um clássico da literatura mundial. “A Divina Comédia, Ilíada e Odisséia, de Homero, ambos também poemas épicos, foram os livros que mais me marcaram.”

O panlatino, ele diz ao POPULAR, “não é uma língua artificial, foi elaborada matematicamente”. Embora não tenha sido adotada por nenhum povo, é um idioma muito estudado por linguistas europeus e brasileiros. William Agel explica que há no mundo quase 3 mil línguas que se agrupam em 12 famílias principais e 50 secundárias. “A minha ideia é fazer para cada família uma língua síntese. O panlatino para as línguas latinas; o pangermânico, para as germânicas; o pancéltico para as célticas e assim por diante.”

O professor Junito de Souza Brandão, um dos grandes classistas brasileiros, afirmou que a tese sui generis poderia render um Prêmio Nobel. William Agel gosta de dizer que a intenção ao criar o panlatino foi “desbabelizar o mundo”. A escolha dos vocábulos, explica, não é feita a bel prazer, como o esperanto, mas a partir da familiaridade de todos os idiomas latinos. Foram noites sem dormir até que a concepção do panlatino estivesse concluída. O trabalho está reunido no volume 3 do primeiro box de suas Obras Completas. O autor ressalta que a existência de um idioma universal seria impossível porque as línguas faladas no mundo são antípodas entre si, “como azeite e água, não se misturam”.

Dos 20 anos que o diplomata serviu fora do Brasil, parte deles foi na África, em países como Tanzânia, República dos Camarões, Zâmbia e Nigéria, onde encerrou a carreira no exterior. Suas observações renderam três livros: O Socialismo Africano: O Modelo da Tanzânia; O Processo de Independência da Namíbia; e O Processo de Dissolução do Apartheid e as Consequentes Transformações na África Austral. As Posições Estratégicas Brasileiras. “Essa bibliografia não existia no Brasil”, revela.

“É impossível conhecer a África sem viver lá, a começar pela estrutura de poder dividida em dois tipos: o constitucional e o tribal que é muito mais forte. O chefe da tribo é o deus supremo. Ele é acima do presidente da república, é quem decide tudo. Me embebedei da cultura africana no sentido prático.”

Foi para ficar livre das doenças que atormentavam não apenas africanos, mas essencialmente estrangeiros, como o ebola, a malária e a dengue, que William Agel encontrou a solução agora adaptada aos tempos de coronavírus. “Todos estavam apavorados. Eu comprei dois macacões, um de plástico e outro de lona de caminhão e coloquei um capacete. Fiquei livre de todas as doenças”, diz ele, antes de uma gargalhada.

Em Goiânia, onde cultiva muitos amigos, entre eles Adovaldo Fernandes Sampaio, para William Agel “o maior linguista do Brasil”, o escritor cumpria uma rotina sagrada até o início da pandemia do coronavírus. De manhã, academia; a tarde, leituras e à noite buscava shoppings para um cinema, um café e conversas com amigos. “Estou há oito meses sem sair de casa. Estou prisioneiro porque sou medroso e covarde, não tenho vergonha de confessar. Mas, é como me disse um amigo: é melhor ficar em casa do que na UTI”.

Mas imprevistos acontecem e foi por causa de um deles que William Agel precisou recorrer à vestimenta africana nesta pandemia, temendo ser atacado pelo coronavírus. Há alguns meses, uma queda em casa exigiu cuidados médicos para sutura de um ferimento na cabeça. “Saiu muito sangue, precisei ir ao hospital, aí vesti novamente o macacão ”, conta, divertido.

 

A paixão pela lexicografia 

Das 58 obras de William Agel, 28 são dicionários entre eles o Dicionário Geral das Línguas Românicas e o Dicionário das Línguas Românicas na Península Ibérica. É dele a maior obra de dicionários bilíngues de línguas românicas do mundo com base no Português. Onze deles são únicos, como o Sardo/Português/Sardo, o Asturiano/Português/Asturiano e o Provençal/Português/Provençal. A produção lexicográfica deu a ele seis recordes mundiais, como o único dicionário Mirandês/Português/Mirandês publicado fora de Portugal; e o único dicionário Galego/Português/Galego publicado fora da Galícia. “Hoje eu não faria isso. É muito trabalho.”

Quando os dicionários foram elaborados, ele detalha, tudo era anotado à mão, depois em fichas e somente após ganhava a máquina de escrever. Cada palavra foi pesquisada para encontrar sua correspondente no Português. Hoje William Agel não domina bem tecnologia. “Só o meu Ipad”, brinca. Tudo o que precisa no computador é tarefa direcionada à secretária que o acompanha. 

A diplomacia e o interesse pela diversidade linguística fizeram de William Agel um poliglota. “Domino perfeitamente seis idiomas, o Português, o Francês, o Inglês, o Italiano, o Espanhol e o Catalão. Conheço vários outros, como o Galego, o Provençal e o Romeno. Falo um pouquinho de cada, a gente vai perdendo a prática.”

 

Proximidade com mestres da literatura

William Agel de Mello viveu a primeira infância em Catalão, depois se mudou com a família para Goiânia onde estudou no Atheneu Dom Bosco e no Lyceu. Em seguida concluiu no Rio de Janeiro o curso de Direito e se inscreveu no Instituto Rio Branco, a escola da diplomacia brasileira. Seu primeiro posto como diplomata foi no Serviço de Demarcação de Fronteiras, cujo chefe era o embaixador João Guimarães Rosa, considerado por muitos, entre eles o próprio William, como o maior escritor brasileiro. Do encontro com o autor de Grande Sertão: Veredas nasceu uma forte amizade, fecundada por um interesse comum: a paixão pelas letras.

Guimarães Rosa o homenageou com o personagem Williãozinho, no conto Retrato de Cavalo, do livro Tutaméia – Terceiras Estórias (1967). Mais tarde, a Ateliê Editorial reuniu em livro 13 correspondências de Guimarães para William. Em 1967, o goiano servia em Barcelona e foi acionado por Guimarães Rosa para acompanhar o trabalho de tradução de Grande Sertão: Veredas para o castelhano. “Como fizemos uma grande amizade, eu fiz o papel de intermediário. Fui o elemento de ligação com os tradutores”, lembra.

A preocupação de Guimarães Rosa é refletida nos escritos epistolares reunidos na obra Cartas a William Agel de Mello. “Se você não botar isso a limpo, renego-te, perespúrio-te, desfraso-te, inintelijo-me contigo, trescuro-te, desbosso-te, transblasfemo-te! Olha, hem?”. William Agel soube por João Cabral de Melo Neto da morte prematura de Guimarães Rosa em razão de um enfarte ainda naquele 1967, três dias após ser empossado na Academia Brasileira de Letras.

João Cabral de Melo Neto, que também uniu a diplomacia à labuta literária, havia assumido o posto de cônsul-geral de Barcelona em 1967. Como cônsul, William Agel ficou muito próximo do pernambucano.

 

Entre a mitologia e a cultura sertaneja

Um dos orgulhos de William Agel é sua obra ficcional. Ele escreveu dois romances – Epopeia dos Sertões e O Último Dia do Homem – e dois livros de contos: Geórgicas: Estórias da Terra e Metamorfose. Um apaixonado declarado pela mitologia, seu livro Epopeia dos Sertões tem sido alvo de sucessivas análises críticas. “O diálogo entre Rolando e Auda é um dos trechos mais bonitos da literatura brasileira”, comentou sobre a obra Guimarães Rosa. 

“É um livro ambientado no sertão goiano e mineiro, mas todo conectado com a mitologia grega, românica e nórdica germânica. Cada ator desempenha dois papéis, um na mitologia e outro como sertanejo. É um livro único”, define o autor. O prefácio da obra coube a Áttico Vilas-Boas, outro linguista que William Agel respeita como “uma pessoa de cultura extraordinária”. Áttico, também historiador, tradutor e pesquisador, morreu em 2016.
 
Certa vez William Agel disse que todas as suas frases “não são escritas, e sim esculpidas”. Esse cuidado profundo com as palavras o levam sempre aprimorar sua criação, o que desmente seu desejo de parar de vez. Em suas tardes, quando não se debruça na leitura, costuma reler o que escreveu e ao encontrar defeitos vai burilando para as próximas edições. Por agora, sonha em reencontrar os amigos, mantém contatos permanentes com instituições literárias que integra como a Academia Brasileira de Filologia e a Academia Catalana de Letras e se delicia com a condição de recém-vovô de Manuela, a primeira neta que acaba de completar três meses. 

 

Primeiro box:

 Volume I – Ficção
 Volume II – Tradução 
 Volume III – Ensaios 
 Volume IV – Monografias
 Volume V – Fortuna Crítica
 Volume VI – Como corrigir uma tese

Segundo box:
 Dicionário Geral das Línguas Românicas – 4 volumes de mil páginas cada um, em formato grande

Terceiro box
 Dicionário Geral das Línguas Românicas da Península Ibérica – 2 volumes, mil páginas cada um, em formato grande.

 

Fonte: O Popular

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